Ao seguir a caminho das urnas como candidata a deputada federal, a vereadora Tiemi Nevoeiro (PL) dá mais um passo em falso, tropeça nas próprias escolhas e cai na vala comum dos políticos que, sob o efeito degenerativo da falta de coerência, apresentam credibilidade em estado avançado de decomposição.
Confirmada à imprensa pela própria vereadora, a parceria com o advogado André Luiz Miranda para a campanha eleitoral causou estupefação nos bastidores políticos de Rio Claro ao revelar o “Lado B” de Tiemi, contrastando com a imagem que acalentou nas eleições municipais de 2024 e que a levou a ser catapultada das urnas à Câmara Municipal, como uma guerreira ninja disposta a combater malfeitos, defender a moralidade administrativa e trazer novo fôlego à direita conservadora.
Mentor da eleição do ex-vereador Sérgio Calixto, de quem foi chefe de gabinete durante a legislatura 2013-2016, não se pode dizer que a trajetória de André Miranda pela cena política rio-clarense tenha se guiado pelos preceitos do Bushido – código de ética e honra dos antigos samurais no Japão feudal.
Pelo contrário, chegou a ser impedido de entrar na Câmara após se tornar alvo de uma ação civil de improbidade administrativa proposta pela 7ª Promotoria de Justiça de Rio Claro. Em maio de 2019 foi condenado pelo Judiciário à perda da função pública e suspensão dos direitos políticos por 5 anos.
Em 2024 voltou à ativa para apoiar Fernando de Lima da Silva, o Fernando do Nordeste, que se elegeu vereador pelo PSD e de quem também foi chefe de gabinete na atual legislatura. A esta altura, André Miranda já atuava como procurador da Terra Plana Locação e Serviços, empresa terceirizada contratada pela Secretaria Municipal de Educação e que, posteriormente, viria a se tornar alvo de críticas e denúncias no plenário da Câmara por parte de Tiemi.
Porém, o mais surpreendente nessa aproximação agora é que logo após as eleições municipais de 2024 e antes mesmo da posse dos eleitos, André Miranda foi apontado como autor da denúncia que levou o Ministério Público Eleitoral a abrir investigação preliminar contra o Republicanos por suposta fraude na cota de gênero, o que colocou sob grave risco o recém conquistado mandato de Tiemi pelo partido, do qual se desfilou neste ano para ingressar no PL e se lançar candidata.
Não é a primeira vez que Tiemi dá passos em falso. Ao final de agosto de 2025, quando presidia a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara de Rio Claro, mostrou desapego a prudência ao estender tapete vermelho ao deputado estadual Lucas Bove (PL), acusado de violência doméstica pela ex-esposa.
Ao tropeçar nas próprias escolhas e se mostrar incoerente, Tiemi esgarça sua credibilidade. O simbolismo na política desempenha um papel fundamental na formação da imagem de partidos e políticos. O apelo emocional e a retórica inspiradora, turbinados em redes sociais, podem, num primeiro momento, cativar eleitores e conquistar sua confiança. No entanto, por mais impactante que seja, o simbolismo não pode ser encarado como um fim em si mesmo: é a coerência entre aquilo que se fala e o que se faz, que pode garantir sucesso e efetividade do compromisso assumido com a sociedade.
“A coerência na política é fundamental e determinante para fazer com que você tenha mais que um mandato”, repetia à exaustão o ex-deputado Aldo Demarchi, tio de Tiemi e detentor de sete mandatos na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp).
Aldo sempre disse ter na figura do pai, Isidoro Demarchi – vereador em Santa Gertrudes por vários mandatos e definido por ele como homem de poucas palavras e ações efetivas – o seu grande exemplo para a vida pública. “Com ele aprendi que uma ação vale mais do que mil palavras”.
Para Tiemi, que emergiu das urnas em 2024 como símbolo de rejuvenescimento e revitalização da direita em Rio Claro, fica o testemunho e o alerta da lição em família.
Na política, não há simbolismo forte o bastante que resista a ação corrosiva da incoerência e da contradição. Fazer escolhas e adotar posturas dissonantes com os valores e ideais que diz defender é abreviar a passagem pela vida pública e optar pelo atalho que conduz ao vale dos ossos secos.











